Atualidade

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Como se caracteriza o fato religioso hoje?

por Karina Oliveira Bezerra

         Esta é uma pergunta bastante debatida atualmente. Devido às constantes descobertas cientificas, e a rápida divulgação da informação, a cada instante, somos levados a refletir sobre os fatos religiosos, e ocorrências ligadas aos mesmos, que acontecem no mundo inteiro. Desse modo, devemos sempre estar não só atualizados, mas, também, na medida do possível, tentar conhecer, estudar e compreender, os mais diversos fenômenos ligados ao sagrado. Pois, fazer uma caracterização do fato religioso definitivo, hoje em dia, é tão equivocado, quanto um cientista dizer que, seu método de pesquisa é imparcial e não contêm fé.

      No entanto, diversas pesquisas são desenvolvidas por estudiosos da religião, a fim de delinear o fato religioso hoje em dia, e suas características. Para isso, sempre voltasse ao passado, no intuito de em linhas gerais, traçarem o desenvolvimento do fato religioso – em uma perspectiva eurocêntrica. O ponto de partida mais específico, geralmente é o “desencantamento do mundo”, que mais na frente mostraremos que não era tão desencantado assim.

      A partir do iluminismo, e mais fortemente após a revolução francesa, a razão passa para primeiro plano, a igreja é desapropriada do poder primário e institucional, e muitas vezes combatida. O pensamento liberto de restrições religiosas, busca conhecer o mundo sem o dedo do deus criador e vigiador. As descobertas científicas que cada vez mais desmistificavam as concepções religiosas, propunham um pensamento positivista, onde era certo, que no futuro não existiria mais religião. Desse modo, o final do século XIX, foi caracterizado como “desencantado”.

         Mas, devemos salientar que a rejeição a religião, foi referente à religião estabelecida, institucional, e em alguns casos ao próprio cristianismo, alvo de muitas críticas.

O processo de secularização confina a esfera de sua atuação (da religião) a limites mais restritos, mas não a apaga enquanto fenômeno social. Nesta perspectiva, o debate sobre o desaparecimento dos universos religiosos é simplesmente inconseqüente. Basta lembrar que Durkheim, quando discutia a supremacia da ciência sobre a religião, dizia que essa última de fato, do ponto de vista explicativo, perdia terreno para o pensamento científico, porém, como a ciência era para ele uma “moral sem ética”, isto é, um universo interpretativo incapaz da dar sentido às ações coletivas, o potencial das religiões, como forma de orientação da conduta, de uma ética de ação no mundo, permanecia inteiramente válido. Na verdade, a modernidade desloca, sem eliminá-lo, o lugar que ela ocupava nas sociedades passadas. O fim do monopólio religioso não coincide, portanto, com o declínio tout court da religião, sua quebra significa justamente pluralidade, diversidade religiosa, seja do ponto de vista individual, seja coletivo. (ORTIZ, 2001). Grifo nosso

             Nessa época, estudiosos viajaram pelo mundo, em busca de conhecimento sobre as religiões. Antropólogos estudaram religiões primitivas da Oceania, em busca de descrever a evolução da religião. Nacionalistas exaltavam o folclore pagão de sua terra. E ainda, velhas Ordens esotéricas se manifestaram, e novas Ordens foram criadas. Também vemos surgir o estudo comparativo das religiões. Em seguida a essa efervescência, de estudos racionalistas, positivistas, e do “boom” de estudos sobre “religiões pagãs” e práticas esotéricas e ocultistas. Vieram as duas guerras mundiais que ocasionou um tipo de resfriamento na existência das pessoas. Pensando desse modo, concordamos com Ortiz (2001) quando ele diz que, “em termos lógicos não há pois necessidade de imaginarmos o “retorno” de algo que nunca expirou. A sociedade moderna, na sua estrutura, é multireligiosa”.

               Assim, discordamos com o termo “retorno do sagrado”, preferimos chamar a segunda metade do século XX, de “primavera do sagrado”. É assim que a década de 1960 parece ser: fruto explosivo germinado no inverno das guerras.

            Outro termo muito usado para caracterizar a processo que colocou o homem no centro do mundo é: “secularização do mundo”. O homem aos poucos foi (e vai) desmistificando as idéias religiosas. Entretanto, esse processo encontrou uma barreira muito grande: “o retorno do sagrado”, que pareceu ser uma resposta a pretensa previsão de morte da religião, através do progresso da secularização. Mas, esse “pseudo retorno” foi a continuidade daquele pluralismo que vinha se desenvolvendo na modernidade.

        No entanto, o pós-guerra, trouxe tecnologias que marcaram o modo como se desenvolveu o fato religioso nas décadas seguintes, diferenciando evidentemente, a forma como o sagrado foi se caracterizando na segunda metade do século XX.

           O desenvolvimento dos meios de comunicação e locomoção, a informática, a teoria de Gaia, repercutiram em um processo, que levou por exemplo, uma banda inglesa ser conhecida em quase todo o mundo. Para esse processo deram o nome de “globalização”. O mundo globalizado inverteu e mudou muitos valores, acarretando mudanças nos pensamentos não só das pessoas, e das nações, mas agora, do mundo todo.

 Diante do processo de globalização o estatuto da nação passa por uma mudança radical, ele caminha do “universal” para o “particular”[...] Do ponto de vista cultural, um sutil deslocamento se produz, ela deixa também de ser considerada algo “para todos” para se tornar uma “diferença”. Isto é, constitui-se num “local” específico contrapondo-se a algo que a transcende, o mundial, o global. A noção de “diferença” sobrepõe-se assim à de “universal” [...] A identidade nacional torna-se uma “diferença” entre várias outras. (ORTIZ,2001)

             Essas significativas mudanças, é de se esperar, refletiu-se no pensamento religioso. “A era da informática coloca à disposição das organizações religiosas um conjunto de mecanismos de alcance transnacionais até então pouco usuais. [...] O advento da Internet possibilita ainda a emergência de uma literatura religiosa on line. (ORTIZ, 2001). Esse mundo informado e globalizado tem suas vantagens e desvantagens para o universo religioso. Vamos começar discutindo as vantagens.

Após haver crido durante séculos que as outras tradições religiosas giram em torno do cristianismo como centro, trata-se hoje de reconhecer que o centro em redor do qual todas as tradições religiosas, inclusive o cristianismo, giram, não é outro senão Deus mesmo.  Assim – afirmam os defensores desta posição – haveria condições de estabelecer uma única teologia válida das religiões, baseada no pluralismo teocêntrico que dá  conta de todos os fenômenos, ultrapassa toda pretensão cristã a um papel privilegiado e universal de Jesus Cristo e estabelece,  enfim,  o diálogo inter-religioso num pé de igualdade verdadeiro. (BINGEMER)

         Com a globalização e o conseqüente diálogo (forçado ou não) das religiões, ou dos líderes religiosos, ou ainda dos praticantes. A aceitação da verdade do outro, ou seja, da existência de verdades locais, culturais, levou e leva o ser humano a agir local e pensar global. Os problemas ecológicos, por exemplo, que é responsabilidade global, é um ponto aglutinante de interesses dos sistemas religiosos.

           No entanto, em alguns casos, a preocupação ecológica é apenas pano de fundo, para o que eles mais perseguem: o consumismo. Pois, “como as religiões, o consumo é um universo repleto de signos e de mitos, um “mundo” com particularidades e exigências próprias”. (ORTIZ, 2001). Dessa forma, o consumismo é um competidor na busca dos fieis. Ficamos agora, diante de um confronto. É bom combater o consumismo, mas, igualmente é bom, respeitar a alteridade. Desse modo, o que importa não é a globalização, mas a forma como utilizamo-la.

          A globalização mudou muitos aspectos da cultura oriental e também trouxe para o ocidente muita mercadoria de lá. E um dos aspectos negativos desse intercâmbio, foi a descontextualização de aspectos das tradições, e o conseqüente “mercado de bens simbólicos”, discutido por Boudieu.

Assim, do mesmo modo que alguém faz um curso de ginástica ou maquilagem com a finalidade de adquirir uma técnica que pode ser explorada profissionalmente, pode também adquirir técnicas de meditação zen, sufista, tibetana, indiana, indonésia etc. e fazer disso uma atividade profissional de “cura dos corpos” (BOURDIEU, apud, CARVALHO, 1992, p. 148)

            Vamos agora esboçar rapidamente como se caracteriza o fato religioso em nosso país, o Brasil. De acordo com o senso de 2000, “Uma primeira constatação é a tendência para uma crescente situação de pluralismo e diversidade religiosa no país.[...] No entanto, quando pensamos em termos de representatividade esta multiplicidade se reduz e se compacta basicamente em três blocos”.(CAMURÇA). São em ordem, Catolicismo, Evangélicos, e “sem religião”. Estes são seguidos, mas bem abaixo da representatividade da população brasileira, pelos espíritas-kardecistas, religiões afro-brasileiras, religiões orientais, Judaísmo, Islamismo, “religiosidades/espiritualidades esotéricas e ‘new ages’”, e “tradições indígenas autóctones”. Em um estudo qualitativo desses dados, Camurça conclui que, “no Brasil, em termos de fenômeno religioso enquanto expressão social, cultural e simbólica, o que parece ser mais significativo são os modos de crenças do que as religiões nominais”. Essa é uma realidade que sempre permeou a religiosidade popular do nosso país, com seus diversos sincretismos. E que caracteriza hoje a religiosidade da classe média, com suas diversas bricolagens de sistemas espirituais.

             É importante também ressaltar o papel do movimento pentecostal e neo- pentecostal na religiosidade brasileira. Pois, esse ramo evangélico é o que mais cresce no Brasil. Esses estão dentro dos movimentos religiosos contemporâneos, que segundo Carvalho,

Em vez de colocar a expectativa de algum tipo de iniciação ou esfera preparatória, tenta, pelo contrário, eliminar possíveis resistências – conceituais, filosóficas, espirituais – do fiel para mergulhar naquele tipo particular de universo sagrado. Em outras palavras, o lado que talvez mais cresça em número de adeptos é aquele que aposta equivocadamente no exotérico; isto é, aquele que se põe mais perto da objetificação. Enfim, em vez de enfatizar processo, enfatiza o produto. (1992, p. 152).

              Assim sendo, nesses exatos cinqüenta anos, desde os anos sessenta, muito se criou, adaptou, reinventou, sincretizou, dessincretizou, e se combateu, no universo do sagrado. Mas, a convicção de que a religião é importante continua fazendo parte do pensamento atual, no entanto em detrimento da religião institucionalizada. E suma,

Finalmente, a sacralidade hoje poderá ser encontrada por aquele ou aquela que está em busca de uma interface experiencial feita ao mesmo tempo de perenidade e movimento.  Experimentar o sagrado é tocar naquilo que não passa, naquilo que é feito de perenidade e grávido de plenitude e que dá sentido e estrutura à vida humana de maneira robusta e inegável.  Ao mesmo tempo, é ser constituído para sempre em peregrino, permanentemente em busca, sempre a caminho, nunca fixado em nenhum solo ou nenhuma paisagem.  A velocidade com que mudam os tempos e as coisas na sociedade onde vivemos, neste sentido, é um alerta permanente para toda tentação de fixismo que quiser rondar e cercar nosso desejo seduzido gratuitamente pelo Sagrado que se propõe como possibilidade amorosa e realizadora. (BINGEMER).

Paganismo é a “segunda fé mais popular” no sudoeste da Inglaterra

Posted by on out 11, 2017 in Contemporânea, Europa, Neopaganismo, Slider, Videografia | 0 comments

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A Federação Pagã afirma que o número de pagãos praticantes é significativamente maior do que os números oficiais mostram. No censo de 2011, 3.339 pessoas se identificaram como pagãs em Devon e Cornwall, tornando-se a quarta maior fé na região. Mas a Federação pagã acha que o número real de pagãos é mais próximo de 40.000, tornando-se a segunda maior fé na região. Ela disse que muitos de seus membros não declararam sua fé no censo por medo de discriminação. Assista o vídeo produzido pela BBC sobre o...

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Entrevista sobre Paganismo, Neopaganismo e Wicca

Posted by on out 5, 2017 in Brasil, Contemporânea, Crônicas, Neopaganismo, Slider | 0 comments

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Esse sábado vai ao ar uma entrevista feita comigo pelo Interdependente – música e conhecimento, da rádio...

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Lançamento do livro Wicca no Brasil

Posted by on out 5, 2017 in Brasil, Contemporânea, Eventos, Meus trabalhos, Neopaganismo, Palestras, Slider | 0 comments

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Templo perdido de Ártemis é encontrado na ilha grega Eubéia

Posted by on set 25, 2017 in Antiga, Europa, Paleopaganismo, Slider | 0 comments

Templo perdido de Ártemis é encontrado na ilha grega Eubéia

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Wicca: uma importante nova religião

Posted by on set 24, 2017 in America, Contemporânea, Meus trabalhos, Neopaganismo, Slider | 0 comments

Wicca: uma importante nova religião

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Por que as Testemunhas de Jeová foram banidas da Rússia?

Posted by on abr 27, 2017 in Ásia, Reveladas, Slider | 0 comments

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Mapeamento de Ecovilas e Comunidades Alternativas do Brasil

Posted by on mar 14, 2017 in Atualidade, Contemporânea, Nova Era, Slider | 0 comments

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Posted by on fev 13, 2017 in Antiga, Brasil, Paleopaganismo, Slider | 0 comments

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Posted by on jan 27, 2017 in Antiga, Europa, Reveladas, Slider | 0 comments

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Posted by on jan 3, 2017 in America, Ciências Sociais, Contemporânea, Slider, Videografia | 0 comments

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