Religiões

SIMBOLOS DA RELIGIÕES

A partir de que Contrato Epistemológico vamos nos lançar sobre as religiões e religiosidade?

Por Karina Oliveira Bezerra

            Desde a antiguidade os filósofos vêem discutindo sobre o tema epistemológico. Os Sofistas, com sua relatividade contextual, eram criticados pelos platônicos, que diziam que o conhecimento exato e verdadeiro mediante o raciocínio abstrato das matemáticas e da filosofia, era possível. Já Aristóteles legitima o processo de conhecimento por meio da observação empírica via órgãos dos sentidos. Essa vertente sensualista influenciou autores no período moderno como Locke, Hume e Condillac. Mas, a figura máxima, da virada de um pensamento “ontofílico” para o epistemofílico, seria o criticismo kantiano.

            No século XX vemos surgir uma revigorada descrição da epistemologia. “Praticar epistemologia é experimentar, no sentido mais forte do termo, a insegurança, o limite, o esforço de lidar com essa angústia da cognição”. (PONDÉ, 2001, p.12).  No estudo cientifico da religião, mais do que em qualquer outra ciência, é necessária uma cultura e uma consciência epistemológica.

 É essencial que uma consciência epistemológica do “problema” e da dúvida como os verdadeiros produtores    do   conhecimento seja cultivada (e portanto produza-se uma cultura epistemológica da dúvida e da controvérsia) entre profissionais que se definem como investigadores. (PONDÉ, 2001, p.19).

            Deste modo, rompendo com a epistemologia tradicional, e como uma expressiva “crise de paradigmas”, em meados do século XX, se destaca no estudo epistemológico, um doutor em física, chamado Thomas Kuhn, que logo ficou não mais conhecido como um físico, mas como um intelectual voltado para a história e a filosofia da ciência. A perspectiva historicista de Kuhn explica que:

O conhecimento científico é o conhecimento compartilhado de uma comunidade; é antes intersubjetivo que estritamente objetivo. As teorias científicas operam dentro de sistemas de pressupostos mais amplos chamados paradigmas. No caso, experimentos ou discernimentos idealizados influenciam a maneira como os pesquisadores buscam por novos dados e aplicações mais amplas de suas teorias. (RUSSEL;WEGTER-MCNELLY, 2003, p. 50).

            Antes de Kuhn, no século XVII, Blaise Pascal matemático, filósofo, teólogo e cientista experimental, formulou o conceito de “verdade local”. “A validade de seus experimentos será diretamente proporcional a sua habilidade em persuadir seus parceiros do rigor de suas conclusões”. (PONDÉ, 2001, p.29). Na mesma linha de discussão, outro físico chamado Ian Barbour, desenvolve para visualizar a ciência, uma estrutura que ele chama de “realismo critico”, onde as teorias cientificas são expressadas por meio de “metáforas”. Assim, fazendo uma ponte entre ciência e religião, ele diz que os “argumentos na filosofia da ciência são paralelos a argumentos na filosofia da religião: tanto a ciência como a religião fazem enunciados cognitivos a respeito do mundo usando um método hipotético-dedutivo em uma estrutura contextualista e historicista”. (RUSSEL;WEGTER-MCNELLY, 2003, p. 51).

                Outro eixo que problematiza a suposta evidencia de modelos epistemológicos, são os das teorias naturalizantes. “A inconsistência do sistema humano é tão óbvia na sua relação com o meio ambiente que a imprecisão epistemológica deveria ser tomada como de fato o é: “natural”. (PONDÉ, 2001, p.35).

               Além de Kunh, outros autores se destacam no estudo epistemológico, são eles: Pascal, Berlin, Eliade e Dascal.  Todos estão entre a vertente epistemológica que ilumina a atividade do conhecimento pela via da controvérsia. A definição proposta na conferência realizada em Praga, para “controvérsias” em epistemologia, foi ligada aos trabalhados de Marcelo Dascal. Defendeu-se que “por meio das controvérsias, argumentos sejam apresentados pelas partes em contenda a fim de que o “equilíbrio” da razão, tenda para um dos lados, sem falsear frontalmente o outro”. (PONDÉ, 2001, p.20).

                Para Mircea Eliade, fazer ciências da religião é investigar um conceito chamado “espírito”, diante desse pressuposto ele lança o problema do “complexo de inferioridade” dos pesquisadores em ciências da religião. Este é caracterizado pela fixação nos estágios filológicos do trabalho investigativo já que este estágio tem o aval epistemológico das demais ciências humanas. “Para Eliade não se trata meramente de uma discussão acerca do estatuto de objeto interdisciplinar da religião, mas sim de uma controvérsia acerca da abordagem epistemológica do problema ciências da religião”. (PONDÉ, 2001, p.41). A problemática de Eliade é fruto das discordâncias metodológicas em ciências da religião, caracterizada na oposição entre o “ateísmo metodológico” e o eliminacionismo de Rudolf Otto. A epistemologia das controvérsias vem desse modo buscando um dialogo entre as oposições.

Trabalhar o conhecimento como dialogo produtor de controvérsia não implica em pura e simples aceitação de qualquer argumento – considero o “ateísmo metodológico” inconsistente, a menos que se assuma como militância especifica -, mas sim em ser capaz de lidar com posições que se contrapõem mas que se sustentam nesta oposição. Esta tensão é que ilumina os argumentos em jogo. É antes de tudo, saber lidar com a impossibilidade de uma síntese “fácil”. O mundo jamais nos permite a tranqüilidade das sínteses. A proposta é ver o surgimento do conhecimento “no” conflito e “no” rearranjo dos argumentos que se confrontam. (PONDÉ, 2001, p.59).

               Desse modo, o contrato epistemológico que defendemos para nos lançar sobre as religiões e religiosidades passa pelo viés desses autores, que deixam claro a necessidade de um contrato epistemológico, por conta das polêmicas quanto à armação lingüista, cultural e biológica. No entanto, como diz Pondé (2001) não devemos aceitar os modelos propostos como “manuais explicativos de comportamento em campo”, temos que ter participação ativa na discussão dos modelos, e para isso é necessário o conhecimento de controvérsias que desenham o campo das hipóteses epistemológicas existente em um dado momento.

*Graduada em História, mestre em Ciências da Religião. Professora de Filosofia e Ética, Antropologia, Sociologia e Metodologia da Ciência na Faculdade Joaquim Nabuco.

Mosaico Religioso: Interfaces entre experiências religiosas e leituras científicas.

Posted by on set 14, 2016 in Artigos, Atualidade, História, Religiões, Slider | 2 comments

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Esse é meu terceiro livro, escrito com colegas da pós graduação em Ciências da Religião, da Universidade Católica de Pernambuco. Os escritores dos artigos são meus colegas de turma do doutorado. Quem tiver interesse em comprar o livro, só é entrar em contato. Vejam a seguir o sumário e o...

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Posted by on ago 13, 2016 in America, Artigos, Meus trabalhos, Religiões, Slider | 0 comments

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Estou participando da organização desse Simpósio na Comissão Editorial e na Secretaria Geral. Também estarei ministrando minicurso e coordenando GT O GT que estou coordenando é o 19: GT – NEOPAGANISMO, BRUXARIA, OCULTISMO, MAGIA E NOVA ERA. Coordenador/a: Karina Oliveira Bezerra, Doutoranda, UNICAP. Associada da ABHR. Resumo do GT: O objetivo desse GT é criar um espaço de discussão e compartilhamento de pesquisas nas áreas das seguintes temáticas: Neopaganismo, Bruxaria, Ocultismo, Magia e Nova Era. Esses tópicos se...

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Mosaico Religioso: faces do sagrado II

Posted by on jan 28, 2013 in Artigos, História, Meus trabalhos, Neopaganismo, Religiões, Reveladas, Slider | 0 comments

Mosaico Religioso: faces do sagrado II

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A religião na pré-história

Posted by on dez 21, 2012 in Artigos, Meus trabalhos, Pré-História, Religiões, Slider | 0 comments

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